DaCosta

O que cabe em minh'alma

Textos

AINDA
                                           AINDA
          A planta que cercava o terreno era de uma espécie que eu nunca mais vi - muito verde, folhas espessas, presas a um talo mais verde ainda. Quando a folha era "quebrada", soltava uma seiva leitosa que, aplicada sobre qualquer ferida, tinha efeito cicatrizante quase imediato.
            No jardim, nada era plantado, isso não impedia que fosse tomado por flores de todos os tamanhos e feitios que cobriam o chão   - um  tapete natural e raro. Tudo que nascia era protegido e regado,só os carrapichos eram retirados. Por ser tão colorido e natural, abelhas, maribondos, borboletas e pássaros desfilavam seus voos incessantemente.As aves espalhavam seus ninhos na velha mangueira.
          Na frente da casa havia uma cerca. Era uma grade alta, feita de estreitas faixas verticais de madeira, mantendo entre si, um certo espaço.Assim, quando alguém passava do lado de fora, eu, do balanço, me divertia vendo aquela figura toda partidinha atrás das ripas desfilar diante de mim. Era como um quebra-cabeças animado!
            A rua era larga de "terra batida".Por não haver trânsito de veículos motores não fazia poeira.Só lama quando chovia. Muita lama vermelha.Do barro rude!
            Havia vizinhos.Todos "se davam bem". As habitações eram esparsas e ocupavam o mesmo lado da rua - o lado direito de quem chegava. Na sua maioria eram casas grandes, pé direito alto, construídas com tijolos e cobertas de telhas, de grossas telhas artesanais de cerâmica.Todas as casas  eram brancas.
          Uma vendinha à esquerda fazia um arremedo de esquina e a ela se seguia um imenso campo coberto de mato verde.Ali pastavam sempre alguns cavalos. Atrás deste campo havia uma área onde eram cultivados laranjais: laranja seleta(um mel)!
          O dono da vendinha era um português calvo, gordinho e muito comunicativo. Ele me dava balas sempre que eu ia lá.Mesmo quando me levavam para comprar doces.Anotava as compras dos fregueses nas "cadernetas".Cada um  tinha a sua. Pagavam no final do mês.Ele vendia "fiado". Nunca soube de alguém que lhe tivesse "dado o beiço". Expressão na época usada para definir o calote.
          Juca era dono de uma grande extensão de terra, cheia de árvores, quase uma floresta. Neste lugar pastava sua boiada prote gida do sol, sem sobressaltos.
          Ninguém era vacinado: nem os bois, nem o Juca.
          Havia o "seu Toninho", sorriso simpático,enegrecido pelo fumo que mascava e que era exímio artesão na arte de trançar esteiras de palha.
         Os cavalos eram encilhados e prontos quase madrugada, carre gados de verduras, legumes e ervas medicinais, acompanhadas de "sábias receitas" abalizadas pelas experiências na cura de moléstias
já sofridas.Tudo era vendido  de porta em porta, ali e nos arredores.
         Os cavaleiros exibiam selas de couro ricamente ornamentadas, os arreios luziam e embora usassem perfumes, o cheiro das verduras frescas e da terra que ainda se prendia às raízes mascaravam qual quer outro odor.
         A conversa com as freguesas demandava muito tempo e, às vezes,também muitos sorrisos e olhares que só mais tarde fui enten der, pois não raro,quando andava de velocípede, via um verdureiro sair apressado da casa de dona Gilca - o primeiro cabelo cor de fogo que eu vi na vida!



dacosta
Enviado por dacosta em 22/01/2011
Alterado em 23/01/2011
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